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    Que tal um passeio?
    Que tal um passeio?

    Se o convite for para andar pelas calçadas da minha cidade, Feira de Santana, melhor pensar duas, ou melhor, dez vezes antes. Não sou engenheira e nem arquiteta, e não entendo nada sobre tipos de piso ideal para calçadas. Mas de uma coisa eu entendo bem: de andar. Sou pedestre de carteirinha.
    No reino da Princesa do Sertão, os sapatos, especialmente os femininos, não namoram as calçadas. A briga é constante. Às vezes se transforma até mesmo em guerra, com direito a machucados, idas aos hospitais e pode até mesmo parar na Justiça. Por aqui, andar nas calçadas é, além de tudo, um grande desafio. Pedras soltas, muitos buracos e muitas outras armadilhas, estão entre os obstáculos nos caminhos traçados diariamente pelos plebeus do “reino da Princesa”.
    Os locais são tão perigosos quanto andar nos trilhos do trem, com uma ressalva: não tem apito e nem sinalização alertando sobre os perigos. Quando você menos espera já está com o pé em um buraco ou em um desnível qualquer. Não é à toa, portanto, que são cada vez mais frequentes os casos de pessoas com torções nos pés, ou até mesmo algo mais grave, nos hospitais ortopédicos da cidade.
    As calçadas são de todos os tipos, mas são raras as bem conservadas e seguras para os pedestres. Têm aquelas feitas com pisos derrapantes, aquelas que só servem para embelezar, as muito perigosas e tem até mesmo aquelas que não têm piso nenhum e que serve bem mesmo para quem quer estacionar o carro, impedindo que os transeuntes possam passar. Mas, as mais presentes mesmos são as de pedra portuguesa. Uma herança da colonização que fazemos questão de manter viva bem aos nossos pés.
    Foram artistas portugueses que no passado cobriram de pedra muitas cidades brasileiras. E, em Feira de Santana, cidade Princesa do Sertão, não foi diferente. Mas, se em Lisboa que tem as calçadas mais lindas do mundo as tais pedrinhas, as portuguesas, com certeza, não são unanimidade (as mulheres reclamam que quebram os saltos dos sapatos e os homens que as pedras escorregam), imaginem por aqui! As calçadas da nossa cidade, definitivamente, não nos convidam para nenhum passeio. E haja paciência e... Resistência.
    Se por lá, além-mar, as calçadas são feitas por artistas, profissional especializado que faz a colocação das pedras uma a uma - o calceteiro, que tem até um monumento na cidade - por aqui, os artistas são os pedestres que se transformam em verdadeiros equilibristas para transitar pelos passeios públicos.
    E o que dizer quando o descaso é tão grande quanto o absurdo? Sim, a lei diz que a responsabilidade pela manutenção e conservação desses locais é do dono do imóvel. E como fica quando a calçada é do poder publico? O que devemos fazer para que a nossa Princesa tenha passeios seguros e tão bonitos quanto os de Lisboa? Garantir a livre circulação das pessoas é cumprir uma determinação da nossa Constituição, que assegura a todos os brasileiros o direito de ir e vir.
    Adoraria aceitar o convite para o passeio, mas, sinceramente: não dá! Não quero correr o risco de cair nos buracos, de torcer o pé, levar topadas, perder o equilíbrio, cair, ser carregada nos seus braços e entrar em um hospital ... Me convida outro dia, quando as calçadas da Princesa estiverem em bom estado...

    * Escrevi esse texto em 2012 mas, infelizmente, continua tão atual :( nada mudou em relação as calçadas na minha princesa...
     

    POR: Rose Leal
    CATEGORIAS: Alô, Modernos
    TAGS: Opinião, Eu penso, Vida de Pedestre, calçadas, pelo direito de ir e vir

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Perfil Rose Leal
Jornalista por formação e vocação Rose Leal é uma mulher inquieta, curiosa, questionadora. Uma aprendiz da vida. Urbana, adora a vida na cidade, mas não dispensa um bom passeio, não importa se para o campo ou para a praia. Defensora das calçadas livres para os pedestres e viciada em revistas de moda. Simples, mas nada básica. Sempre a mil, decidiu, há quase seis anos, colocar as opiniões e ideias sobre moda em um blog. Assim surgiu o Barbarella Moderna. O nome d... (+)
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